“Conectar com treinadores de diferentes países e experiências é algo muito enriquecedor”
José Zarco é um treinador espanhol com uma trajetória internacional de destaque. Desde os seus primeiros passos no Dubai até ao seu trabalho atual no Iraque, a sua carreira tem sido marcada pelo desafio de desenvolver talento em contextos diferentes do futebol europeu. Nesta entrevista, ele partilha a sua experiência, os desafios que encontrou e a sua visão sobre o futuro do futebol no Iraque.
PERGUNTA: O que te motivou a treinar no estrangeiro, e em particular no Iraque?
RESPOSTA: Há quase oito anos decidi dar o passo de treinar fora de Espanha com o objetivo de crescer tanto a nível profissional como pessoal. Sempre tive claro que queria sair da minha zona de conforto e contribuir com a minha visão para projetos noutros países.
A minha primeira oportunidade surgiu no Dubai, num projeto da LaLiga. Tinha apenas 24 anos e não hesitei em aceitá-la. Passei sete épocas lá, desde treinar jogadores sub-12 até dirigir uma equipa da Segunda Divisão dos Emirados Árabes e ser diretor técnico de uma academia.
Quando surgiu a possibilidade de treinar no Iraque, vi uma oportunidade única. Trata-se de um projeto ambicioso, fundamental para o desenvolvimento do futebol num país com um enorme potencial, mas que ainda está em reconstrução. Além disso, dirigir uma seleção nacional é um desafio profissional muito atrativo. Poder influenciar o crescimento do futebol no Iraque e ajudar jovens talentos é uma enorme motivação.
P: Quais foram as diferenças culturais e futebolísticas que mais te surpreenderam ao chegar ao Iraque?
R: A primeira coisa que me impressionou foi a paixão pelo futebol. No Iraque, quando a seleção nacional joga, tudo para. No entanto, o futebol aqui ainda está em desenvolvimento e há muitas áreas que precisam de melhorias.
A nível futebolístico, percebi que faltam infraestruturas e recursos, especialmente na formação de base. No entanto, há um talento natural impressionante. Com motivação e um trabalho bem estruturado, o nível pode melhorar significativamente nos próximos anos.
P: Quais são os principais desafios ao trabalhar com jogadores jovens no Iraque?
R: Um dos maiores desafios é a falta de hábitos desportivos, como uma boa alimentação e descanso. Em Espanha, os jogadores entendem que o seu desempenho depende de como cuidam do seu corpo 24 horas por dia. Aqui, isso ainda não está enraizado.
Também há lacunas na formação tática. Muitos jogadores tendem a ser muito individualistas e falta-lhes compreensão do jogo coletivo. Felizmente, a Federação Iraquiana de Futebol está a fazer um esforço para melhorar a base do futebol, ajudando os clubes a estruturar melhor as suas academias e a implementar metodologias de treino adequadas.
P: Em que aspetos técnicos e táticos foca o teu trabalho?
R: Numa seleção nacional, o tempo de trabalho com os jogadores é limitado: 10-12 dias de forma periódica. Por isso, temos de ser muito precisos e eficientes.
Trabalhamos para melhorar os hábitos técnicos individuais e, acima de tudo, a tomada de decisão. Queremos que os jogadores entendam o jogo coletivamente e saibam como responder às necessidades da equipa em cada fase do jogo.
P: Como definirias o estilo de jogo no Iraque comparado com o modelo espanhol?
R: No Iraque, o futebol é mais direto e físico, com menos organização tática. Predomina o jogo individualista. No entanto, com a chegada de um corpo técnico espanhol à seleção principal, está a ser promovido um modelo de jogo mais estruturado e coletivo.
A nível formativo, o desafio é grande. Falta metodologia para que o talento natural dos jogadores se traduza num jogo eficaz e coletivo. Em Espanha, os jogadores chegam mais preparados para a elite porque desde jovens recebem uma formação completa. Ainda assim, no Iraque há muita vontade de melhorar, e isso dá-nos otimismo.
P: Qual é o valor de os treinadores se fazerem sócios da AITF?
R: Conectar com treinadores de diferentes países e experiências é algo muito enriquecedor. Hoje em dia, muitos treinadores procuram oportunidades fora do seu país, e contar com uma associação que ofereça orientação legal, logística e contratual é fundamental para tomar decisões com segurança.
Trabalhar no estrangeiro implica considerar muitos fatores, e ter um apoio profissional permite que o treinador se concentre no aspeto desportivo sem preocupações adicionais.
P: Que conselho darias a um treinador que está a pensar em trabalhar fora do seu país?
R: O meu conselho é que o faça. Estou há oito anos fora e tem sido uma experiência enriquecedora. No entanto, é essencial pesquisar bem o país, o projeto e garantir que tudo está bem estruturado antes de partir.
Treinar no estrangeiro obriga a adaptar-se a novas culturas e a resolver problemas sob pressão. Melhora a capacidade de análise e resolução de conflitos, tornando-nos treinadores mais completos. Além disso, permite criar uma rede de contactos internacional muito valiosa. Embora existam sacrifícios pessoais, as oportunidades de crescimento profissional e pessoal fazem com que valha a pena. Recomendo a 100%.
A AITF trabalha para criar ligações entre treinadores de todo o mundo, oferecendo oportunidades de crescimento e desenvolvimento em mercados internacionais. Se és treinador e desejas melhorar a tua carreira ou partilhar as tuas experiências, convidamos-te a juntar-te à nossa comunidade. Torna-te membro da AITF e faz parte de uma rede global que apoia e potencia o talento dos técnicos de futebol!
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